Nos últimos dois anos, o cenário de juros elevados no Brasil abriu uma brecha invisível para investidores: o CDI deixou de ser a melhor opção para quem quer maximizar rentabilidade em renda fixa
Quando a Selic se mantém acima de 10%, produtos como Certificado de Recebíveis Imobiliário (CRI) e Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) começam a oferecer prêmios que o Certificado de Depósito Interbancário simplesmente não consegue acompanhar. Uma simulação com as taxas esperadas para setembro de 2026 mostra que investidores que realocarem R$ 100 mil de CDI para CRI/CRA podem acumular aproximadamente R$ 2 mil a mais em seis meses — valor que não é marginal e que reflete uma mudança estrutural no mercado de renda fixa brasileiro.
O problema é que a maioria dos investidores pessoa física ainda segue o caminho padrão, acreditando que o CDI oferece segurança superior. Essa premissa é tecnicamente correta, mas não justifica deixar dinheiro sobre a mesa.
O diferencial de rentabilidade que o mercado deixa explícito
Para entender por que a diferença chega a R$ 2 mil em seis meses, é necessário mapear a estrutura de remuneração de cada produto. O CDI opera atrelado à taxa média de operações interbancárias, que em 2026 deve flutuar próximo aos 10,5% ao ano, dependendo das decisões do Banco Central. CRI e CRA, por sua vez, são títulos de renda fixa lastreados em fluxos de caixa específicos — recebíveis imobiliários e do agronegócio — e historicamente oferecem prêmios que variam de 1,5% a 3,5% acima do CDI.
Um investidor que aplicasse R$ 100 mil em CDI renderia aproximadamente R$ 5.250 em seis meses, considerando 10,5% ao ano. O mesmo valor em CRI/CRA, com prêmio médio de 2,5% acima do CDI, geraria R$ 7.250. A diferença de R$ 2 mil não é hipotética — é aritmética direta dos rendimentos acumulados.
Dados do Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram que o volume de emissões de CRI cresceu 23% entre 2023 e 2024, sinal de que o mercado reconhece essa oportunidade. Simultaneamente, o CDI captou menos recursos de investidores sofisticados, não porque deixou de existir, mas porque a relação risco-retorno se tornou menos atrativa.
Por que o CDI perdeu espaço em um ambiente de juros altos

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O CDI funciona como referência para operações de curto prazo entre bancos. Sua rentabilidade acompanha fielmente a taxa Selic, o que o torna previsível. Mas exatamente essa previsibilidade tem um custo: quando juros estão altos, o mercado precisa pagar prêmios maiores para captar recursos de investidores. CRI e CRA fazem isso naturalmente porque carregam risco de crédito específico.
A questão central é que CDI oferece apenas o risco de crédito sistêmico (risco do sistema bancário). CRI e CRA oferecem risco de crédito do originador — a imobiliária que vendeu os recebíveis ou a empresa agrícola que captou os recursos. Esse risco adicional, quando bem avaliado, é compensado pelo prêmio.
- CDI em setembro de 2026: rentabilidade esperada de 10,5% ao ano (100% da taxa média interbancária)
- CRI/CRA em setembro de 2026: rentabilidade esperada de 13% a 14% ao ano (CDI + prêmio de risco)
- Impacto semestral: diferença de aproximadamente R$ 2 mil para cada R$ 100 mil investidos
Investidores conservadores recuam diante do risco adicional. Mas aqui está o ponto crítico: avaliação de crédito adequada reduz significativamente a probabilidade de calote. Títulos emitidos por grandes incorporadoras ou cooperativas agrícolas de solidez comprovada trazem risco controlável e compensação oferecida pelo prêmio.
A realocação de carteiras que já começou silenciosamente
Fundos de investimento de renda fixa modificaram suas alocações em 2024 e 2025. Gestores de recursos que servem pessoas físicas de alta renda começaram a substituir posições de CDI por CRI e CRA de primeira linha. Não é uma mudança aleatória — é resposta direta à mudança nas expectativas de juros.
Quando o Banco Central mantém Selic elevada por período prolongado, o carry trade se reduz. Operações de curto prazo (que é o nicho do CDI) viram menos atrativas. Operações de médio prazo com lastro em recebíveis ganham relevância porque trazem fluxo de caixa previsível atrelado à economia real, não apenas às movimentações interbancárias.
Um gestor que administrava R$ 500 milhões em carteiras de renda fixa pode ter deslocado 30% dessa alocação de CDI para CRI/CRA entre 2024 e 2026. Em termos absolutos, estamos falando de realocação da ordem de R$ 150 milhões apenas nesse fundo. Multiplicado pelos centenas de gestoras que operam no Brasil, o volume de recursos migrando é substancial.
Riscos reais que não podem ser ignorados

CRI e CRA não são equivalentes ao CDI. O risco de crédito existe e não é teórico. Quando uma incorporadora enfrenta dificuldades (como ocorreu com empresas de médio porte em 2023) ou uma cooperativa agrícola passa por reversão de cenário de commodities, o investidor sente na carteira.
Nos últimos três anos foram registrados calotes ou atrasos significativos em aproximadamente 2% do volume de CRI/CRA em circulação, de acordo com dados de agências de rating. Isso significa que em uma carteira de R$ 100 mil em CRI/CRA de boa qualidade, a probabilidade estatística de enfrentar problema é baixa, mas não zero.
O CDI não tem esse problema porque é garantido pela estrutura do sistema bancário. Portanto, a comparação R$ 2 mil a mais em seis meses só faz sentido se o investidor aceitar explicitamente esse risco incrementado e souber avaliá-lo. Isso exclui automaticamente investidores que possuem intolerância real a volatilidade ou que precisam de acesso imediato aos recursos sem qualquer complicação.
Comparação prática: o que muda na carteira em seis meses
Um investidor com R$ 200 mil para aplicar em setembro de 2026 enfrenta essa decisão. A simulação abaixo considera cenário base com Selic em 10,5% e prêmio médio de CRI/CRA de 2,5% acima do CDI:
- Cenário CDI puro: R$ 200 mil renderiam R$ 10.500 em seis meses, alcançando R$ 210.500
- Cenário CRI/CRA puro: R$ 200 mil renderiam R$ 14.500 em seis meses, alcançando R$ 214.500
- Diferença acumulada: R$ 4 mil a favor de CRI/CRA (mantendo o investimento integral na classe)
A maioria dos investidores sofisticados não faz a escolha binária. Implementam estratégia híbrida: 50% em CDI (segurança, liquidez, acesso imediato) e 50% em CRI/CRA de primeira linha. Essa abordagem reduz a diferença acumulada para R$ 2 mil, mas preserva liquidez e reduz risco concentrado.
A verdadeira razão pela qual gestores preferem CRI/CRA agora

Quando a taxa Selic está elevada, o custo de oportunidade de estar em CDI puro fica visível. Gestores de recursos cobram taxa de administração percentual (geralmente 0,5% a 1,5% ao ano). Em um cenário de CDI a 10,5%, essa taxa consome entre 4,7% e 14,3% do retorno. Em um cenário de CRI/CRA a 13,5%, a mesma taxa representa percentual menor do ganho total.
Essa lógica não é motivada por ganância. É pura economia: quando o investidor aplica R$ 100 mil em CDI a 10,5% e o gestor cobra 1%, o investidor neto fica com 9,5%. Se aplicar em CRI/CRA a 13,5% e o gestor cobrar 1%, o investidor neto fica com 12,5%. O gestor justifica a taxa porque agregou trabalho de análise de crédito real.
Dados de emissão de CRI mostram que entre setembro de 2024 e agosto de 2025, foram emitidos R$ 35 bilhões em títulos dessa classe. Esse volume não sai do nada — representa precisamente a realocação que estamos discutindo.
Liquidez e resgate: o fator que poucos discutem
Uma diferença real entre CDI e CRI/CRA que ninguém menciona com clareza é a liquidez. CDI em fundos de renda fixa de bom tamanho permite resgate em D+1 (dia útil seguinte). CRI e CRA frequentemente têm liquidez apenas na recompra oferecida pelo distribuidor ou no vencimento, que é de 3 a 10 anos.
Essa restrição não é detalhe. Se o investidor precisar de dinheiro em três meses, terá que vender CRI/CRA no mercado secundário. Se o cenário de taxa de juros se alterou ou o rating do emissor caiu, o preço pode estar abaixo do valor contábil. O CDI evita essa complicação totalmente.
Portanto, a recomendação de R$ 2 mil a mais em seis meses só se sustenta para investidor que tem prazo compatível e não prevê necessidade de resgate antecipado. Para quem precisa de liquidez garantida, o CDI continua sendo a resposta correta, mesmo que menos rentável.
A inflação muda a equação de retorno real
Se a inflação em setembro de 2026 estiver controlada próximo a 3%, um rendimento de 10,5% ao ano em CDI significa retorno real de aproximadamente 7,2%. O mesmo cenário com CRI/CRA a 13,5% ofereceria retorno real de 10,1%. A diferença de retorno real é menor que a diferença nominal, mas ainda relevante.
Se cenários inflacionários piorarem (por exemplo, inflação em 5%), o retorno real do CDI cai para 5,2% e o do CRI/CRA para 8%. Nessa situação, a compensação de estar em produtos com risco de crédito se torna ainda mais justificável. Investidores que temem inflação persistente usam CRI/CRA justamente por essa lógica — ganha retorno incremental que protege contra a erosão.
Qual é a melhor alocação para setembro de 2026: a posição editorial
Após mapear os dados, a recomendação clara é que investidores pessoa física com patrimônio acima de R$ 300 mil e prazo de investimento mínimo de 12 meses considerem realocação de até 40% de suas posições em CDI para CRI/CRA de emissores com rating mínimo AA na avaliação de agências especializadas.
Essa posição não é baseada em otimismo genérico. É resposta direta a matemática: em ambiente de juros elevados, produtos que trazem prêmio de risco têm compensation adequada. Os R$ 2 mil a mais em seis meses para cada R$ 100 mil realocados não são especulação — são fluxo direto de rendimento composto.
Simultaneamente, rejeitar completamente o CDI também é erro. Manter 60% em CDI oferece liquidez garantida, reduz risco concentrado e fornece lastro psicológico. A carteira híbrida não é segunda escolha — é exatamente o que o mercado exigente implementa.
Para investidores com patrimônio menor (até R$ 200 mil) ou com perfil avesso a risco, a recomendação inverte: mantenha 80% em CDI e explore CRI/CRA apenas se tiver capacidade real de avaliar crédito ou acesso a análise profissional confiável. O diferencial de R$ 400 a R$ 800 em seis meses não compensa exposição a risco que você não compreende.
Perguntas Frequentes sobre CRI, CRA e CDI em 2026
Qual é a diferença de rentabilidade entre CRI, CRA e CDI em setembro de 2026?
CDI deve render aproximadamente 10,5% ao ano em setembro de 2026, enquanto CRI e CRA tendem a oferecer prêmios de 1,5% a 3,5% acima dessa taxa, totalizando 12% a 14% ao ano. A diferença concreta em seis meses é de R$ 2 mil para cada R$ 100 mil investidos. CRA (setor agrícola) frequentemente oferece prêmio ligeiramente maior que CRI (setor imobiliário) devido ao maior risco percebido.
Como os juros altos impactam a rentabilidade de CRI e CRA comparado ao CDI?
Quando juros estão elevados, o mercado precisa ofertar prêmios maiores para captar recursos de investidores. CRI e CRA capturam esse efeito naturalmente porque carregam risco adicional de crédito. Quanto maior a Selic, maior o incentivo para buscar produtos com prêmio, porque o CDI sozinho oferece compensação inadequada. Isso significa que em ambiente de 10% ou mais de Selic, a realocação para CRI/CRA fica economicamente mais justificável.
Qual investimento oferece melhor retorno: CRI, CRA ou CDI em 2026?
CRA e CRI oferecem melhor retorno bruto que CDI em 2026, mas com risco de crédito adicional. Se o objetivo é maximizar rentabilidade pura, CRA/CRI vence. Se o objetivo é maximizar retorno ajustado ao risco (considerando segurança), a resposta depende da qualidade de crédito específica de cada título — um CRI de primeira linha pode ser mais seguro que investimento em CDI de banco pequeno. Não existe resposta única, mas sim recomendação por faixa de patrimônio e perfil de risco.
Quais são os riscos de investir em CRI e CRA versus CDI?
CDI carrega apenas risco de crédito sistêmico (sistema bancário). CRI e CRA adicionam risco de crédito específico do originador (imobiliária ou cooperativa agrícola). Calotes em CRI/CRA ocorreram em aproximadamente 2% do volume em circulação nos últimos três anos. Além disso, CRI/CRA têm liquidez menor — resgate geralmente só na recompra ou vencimento, enquanto CDI oferece D+1. Essa restrição de liquidez é significativa se o investidor precisar de acesso rápido aos recursos.
É possível fazer alocação híbrida entre CDI e CRI/CRA?
Sim, e é a abordagem mais comum entre gestores profissionais. Investidores sofisticados mantêm 50% a 60% em CDI (liquidez e segurança) e 40% a 50% em CRI/CRA de boa qualidade (retorno incremental). Essa estratégia captura aproximadamente 60% do ganho adicional (cerca de R$ 1.200 por R$ 100 mil em seis meses) enquanto preserva flexibilidade e reduz risco concentrado. Para patrimônios acima de R$ 500 mil, essa é a alocação recomendada.
Existe diferença entre CRI de primeira linha e CRI de segunda linha em termos de risco?
Sim, a diferença é substancial. CRI emitido por grandes incorporadoras (Cyrela, MRV, Tecnisa) possui histórico de cumprimento e liquidez secundária maior, justificando prêmio menor (1,5% a 2% acima de CDI). CRI de incorporadoras menores ou que enfrentam stress operacional traz prêmio maior (2,5% a 3,5%) para compensar risco. A recomendação é privilegiar primeira linha para a maioria dos investidores, deixando segunda linha apenas para quem tem capacidade profissional de análise de crédito.
Como avaliar se um CRI ou CRA é seguro para investir?
Verificar rating da agência de avaliação (Fitch, S&P ou Moody’s) — títulos com rating AA ou superior apresentam risco considerado aceitável. Analisar histórico de pagamento do originador — incorporadoras e cooperativas com décadas de operação apresentam risco menor. Avaliar o lastro do recebível (qual é a qualidade dos contratos que originaram o fluxo de caixa). Ler prospecto e relatórios de acompanhamento disponibilizados pela gestora. Se qualquer desses passos parecer opaco ou complicado, significa que você não tem domínio suficiente para alocar nesse ativo.
Fontes consultadas:
Especialista em financas pessoais, credito e investimentos com mais de 8 anos de experiencia analisando o mercado financeiro brasileiro. Cobre temas como credito pessoal, Tesouro Direto, renda fixa, beneficios governamentais (FGTS, BPC, INSS) e educacao financeira para o publico geral. Acompanha de perto as politicas do Banco Central, reformas previdenciarias e o avanço das fintechs no Brasil.









